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Erros que matam o negócio de qualquer fotógrafo iniciante

Felipe Ferreira
Felipe Ferreira Advogado · Fotógrafo · Fundador do FMN

Nenhum barco afunda de uma vez só, ele enche aos poucos, por um punhado de rachadura pequena que ninguém tapou a tempo, até que a água toma o convés inteiro numa manhã qualquer, sem aviso.

É basicamente a mesma história de todo negócio de fotógrafo que fecha as portas. Ninguém quebra por tirar foto ruim, isso quase nunca é o motivo real. Quebra por deixar um punhado de rachadura pequena crescendo tempo demais. Sozinha nenhuma delas afunda nada, juntas afundam o barco inteiro.

Vejo os mesmos sete furos se repetirem na mentoria, ano após ano, no fotógrafo tecnicamente bom e no fotógrafo tecnicamente mediano, sem distinção nenhuma entre os dois grupos. Então bora tapar um por um?

1. Não calcular o próprio custo

Cobrar no olho, olhando o que o colega cobra, sem nunca ter somado depreciação de equipamento, despesa fixa e o quanto cada hora precisa render pra cobrir tudo isso. Já expliquei essa conta com número na mão em outro artigo aqui do blog: soma toda despesa do mês, inclusive a depreciação do equipamento, divide pelo tanto de hora que sobra de verdade pra trabalhar. Só depois soma o lucro que você quer por cima. O que sai dessa conta é o seu preço mínimo real, não o que sai no chute da última hora, no susto, com o cliente já esperando resposta no WhatsApp1. Sem essa conta, não tem como saber se um trabalho deu lucro de verdade ou só disfarçou prejuízo de faturamento.

2. Trabalhar sem contrato

Combinado de boca funciona até o dia em que não funciona. Um exemplo clássico da mentoria: fotógrafo fecha um casamento inteiro numa ligação de dez minutos, sem anotar nada. Cliente jura que "making of" tava incluído na conversa, fotógrafo jura que só topou cobertura de cerimônia e festa. Nenhum dos dois mente, cada um guardou a versão que fez mais sentido pra ele no calor do momento. No dia da entrega, o cliente cobra o que acha que comprou, o fotógrafo entrega o que acha que vendeu. Os dois saem daquela conversa se sentindo enganados. Cliente e fotógrafo lembram versões diferentes da mesma conversa. Sem nada escrito, ninguém tem como provar qual versão vale.

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3. Não separar o dinheiro da pessoa física do dinheiro do negócio

Tudo cai na mesma conta, o pagamento do cliente e o boleto de casa, tudo junto, tudo misturado. Sem separação, fica impossível saber se o negócio de fotografia tá de pé sozinho ou se tá sendo sustentado, escondido, por outra fonte de renda sua. É o tipo de furo que não faz barulho nenhum, só vai enchendo o porão devagarinho.

4. Depender de 1 ou 2 clientes só

Uma agência, um contratante fixo, um indicador só, segurando a maior parte do seu faturamento sozinho. Funciona bonito enquanto dura, o problema é o dia que esse cliente sumir, muda de fornecedor, corta orçamento, ou simplesmente some. Quando ele vai embora, some o mês inteiro junto com ele. Aí a rachadura vira buraco de verdade.

5. Não ter reserva pra mês fraco

Fotografia tem sazonalidade, dezembro não é fevereiro, ponto final. Sem reserva, o mês fraco deixa de ser só um mês mais parado e vira desespero de verdade. Desespero financeiro é péssimo conselheiro, ele empurra pra decisão pior ainda, tipo baixar um preço justo bem na hora errada, exatamente quando você mais precisava sustentar o negócio.

6. Confundir faturamento com lucro

Entrar R$ 10 mil na conta não quer dizer R$ 10 mil de lucro. Isso engana geral. Equipamento, imposto, despesa fixa, tudo isso já tá descontado antes de sobrar alguma coisa de verdade no seu bolso. Comemorar faturamento sem saber a margem é comemorar um número que não conta nem metade da história.

7. Não abrir CNPJ

Cobrar como pessoa física, sem nota fiscal pra emitir, fecha a porta com boa parte do cliente corporativo de cara, ele nem chega a negociar com você. O imposto também pesa mais desse jeito: carnê-leão de autônomo costuma comer uma fatia maior do que o Simples Nacional de um MEI ou ME formalizado comeria. E sem CNPJ, aquela conta PJ separada do furo 3 nem existe de verdade, porque banco nenhum abre conta empresarial pra CPF.

Os sete furos, lado a lado.

FuroO que fazer no lugar
Cobrar no olhoSomar depreciação, despesa fixa e o valor real da hora antes de dar qualquer preço
Trabalhar sem contratoFormalizar cada trabalho por escrito, antes da sessão começar
Misturar conta pessoal com a do negócioAbrir uma conta separada só pra fotografia
Depender de 1 ou 2 clientesDiversificar fonte de trabalho, sem depender de um cliente grande sozinho
Não ter reserva pra mês fracoGuardar parte de todo mês forte pra cobrir o mês fraco sem desespero
Confundir faturamento com lucroCalcular a margem real, depois de imposto, equipamento e despesa fixa
Não abrir CNPJFormalizar como MEI ou ME assim que o faturamento justificar, pra emitir nota e pagar menos imposto

Um ponto de honestidade antes de fechar. Nenhum desses sete furos, sozinho, afunda o barco. O problema de verdade é deixar vários abertos ao mesmo tempo sem perceber, porque eles se alimentam um do outro, um furo alimenta o próximo sem você notar. Quem não calcula custo também não sabe se tem reserva. Quem não tem contrato também tende a não separar as contas, porque a bagunça é sempre a mesma, em todo canto do barco.

O que fazer na segunda-feira de manhã

  • Marque, dessa lista de sete, qual furo você reconhece na própria rotina agora, sem se cobrar, só pra ter clareza de onde começar.
  • Escolha um furo só pra tapar essa semana, não os sete de uma vez, começar pelo custo da hora costuma destravar os outros sozinho.
  • Abra uma conta separada só pro negócio, ela já resolve metade do problema de faturamento x lucro sem esforço nenhum.
  • Se ainda não tem, formalize contrato antes do próximo trabalho.

No fim, o mercado de fotografia não filtra por talento. Filtra por quem tapa os furos antes deles crescerem. Não tem nada de errado em aprender fotografia primeiro e negócio depois, quase todo mundo aprendeu assim, inclusive eu. O problema é ficar anos remando com o barco furado, achando que o problema é a técnica, quando o problema tava embaixo da linha d'água esse tempo todo.

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