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O que eu faria se estivesse abrindo meu negócio de fotografia hoje

Felipe Ferreira
Felipe Ferreira Advogado · Fotógrafo · Fundador do FMN

Existe um conceito dentro do universo dos games chamado New Game Plus. Você termina a campanha, recomeça do zero, mas carrega junto tudo que aprendeu e todo item que já tinha desbloqueado. A segunda partida nunca é igual à primeira porque agora você já sabe onde estão as armadilhas.

Não faço parte da bolha gamer. Joguei bastante Mega Drive quando era criança, mas parei por aí. Mesmo assim, esse conceito específico sempre me pareceu certeiro demais pra ficar só dentro do jogo.

E não é força de expressão. A psicologia tem uma versão séria da mesma ideia: o Ciclo de Aprendizagem Vivencial, descrito pelo pesquisador David Kolb em 1984. A teoria diz que você aprende de verdade em quatro etapas que se repetem em espiral, vive a experiência, reflete sobre o que aconteceu, forma um novo jeito de pensar sobre aquilo e testa esse novo jeito na próxima rodada1. Isso é o New Game Plus, só que com nome de artigo científico.

Se meu negócio de fotografia tivesse um New Game Plus, é isso que eu faria diferente.

"Felipe, mas você já é advogado e Mestre em Gestão, já tinha vantagem que a maioria não tem." Tinha. Mesmo assim, errei do mesmo jeito que erra todo mundo que aprende fotografia primeiro e negócio depois. Conhecer a lei e a teoria de gestão de um negócio não livra ninguém dos erros de mindset e de gestão mais básicos. Cometi praticamente todos.

Uma palavra antes de seguir. "Mindset" virou modismo de coach de internet, tipo esses que prometem mudar sua vida em 21 dias. Mas o termo é sério, vem da psicologia de verdade. A pesquisadora de Stanford Carol Dweck cunhou o conceito em décadas de pesquisa e mostrou a diferença entre mentalidade fixa (achar que capacidade é dom que não muda) e mentalidade de crescimento (entender que capacidade se desenvolve com esforço e repertório)2. Toda vez que eu uso a palavra aqui, é nesse sentido, não no sentido de post motivacional.

Todo New Game Plus começa igual: você recomeça a fase com tudo que já aprendeu
Todo New Game Plus começa igual: você recomeça a fase com tudo que já aprendeu

1. Eu ia testar mais, pra errar mais cedo

Quem erra cedo corrige cedo. Eu levei tempo demais protegendo ideia que nunca tinha sido testada, com medo de expor um preço, um formato de atendimento ou um jeito novo de trabalhar antes de estarem prontos. O problema é que pronto só se descobre testando.

Eric Ries já escreveu isso de um jeito melhor do que eu consigo. No livro A Startup Enxuta, ele defende que o caminho mais rápido pra descobrir se uma ideia funciona é colocar uma versão simples dela no mercado real o quanto antes, medir o resultado e ajustar, em vez de passar meses planejando uma versão perfeita que ninguém testou3. Cada teste que eu adiava era um erro empurrado pra uma fase mais cara de corrigir lá na frente.

2. Eu ia me preocupar menos em fazer tudo perfeito e mais em fazer (eu ia praticar o "feito é melhor do que perfeito não feito")

Planejei site, proposta e portfólio até ficarem bons o bastante pra eu "poder" começar. Hoje sei que plano parado no papel não atende cliente nenhum. É mais fácil sair fazendo e ir ajustando pelo caminho do que esperar a versão perfeita pra só depois agir. O mercado não avalia o plano que você teve, avalia o trabalho que você entregou.

Plano sem execução não gera venda. Sem venda não tem renda. Sem renda não existe negócio que se sustente.

3. Eu ia calcular o preço antes de sair fotografando, não anos depois

Cobrei no chute por tempo demais, olhando o que o colega cobrava, sem nunca ter somado depreciação de equipamento, despesa fixa e quanto cada hora minha precisava render pra cobrir tudo isso. Só fui descobrir a conta certa depois de fechar dezenas de trabalho no prejuízo disfarçado de faturamento4. Se eu pudesse voltar, essa seria a primeira conta que eu faria, antes do primeiro cliente, não depois do décimo.

4. Eu ia formalizar contrato desde o primeiro cliente, não só depois do primeiro calote

Vivi o clássico. Achei que contrato era coisa pra depois, quando o negócio "ficasse grande". Precisei de um desentendimento de verdade pra aprender que a memória de duas pessoas sobre a mesma conversa quase nunca bate igual5. O primeiro contrato que eu fiz direito foi resposta a um problema que já tinha acontecido, não prevenção de um problema futuro.

Hoje não existe trabalho sem contrato aqui. No momento em que o cliente diz sim, o link pra assinar já sai, direto pelo Blindagem, o aplicativo de assinatura de contrato que a gente desenvolveu justamente pra isso.

Blindagem, assinatura digital de contrato para fotógrafos

Se eu estivesse começando hoje, era por aqui que eu começaria. O Blindagem é o aplicativo que eu uso no meu próprio estúdio: os contratos-mãe já vêm prontos, em formato visual, com as cláusulas revisadas. Ele resolve a parte que trava todo mundo no começo, que é fazer o cliente assinar. Você manda o link pelo WhatsApp, ele assina do celular, com validade jurídica.

Conhecer o Blindagem

5. Eu ia investir menos em equipamento e mais em entender o próprio negócio

Troquei de câmera achando que o próximo corpo ou a próxima lente resolveria um problema que, na real, era de precificação e gestão, não de qualidade de imagem. Equipamento novo nunca corrigiu conta que não fechava.

No início eu tive uma câmera semiprofissional, mas a primeira com lente intercambiável já foi uma Canon 5D Mark II, que na época era o topo de linha do mercado fotográfico. Custou caro, cheguei a pegar empréstimo pra comprar. Hoje eu não faria isso de novo. Não que eu me arrependa, mas talvez tivesse investido mais em aprender a vender e a fazer marketing com parte desse dinheiro.

6. Eu ia focar mais, em menos frentes ao mesmo tempo

Tive várias fontes de renda ao mesmo tempo. Isso não foi exatamente um erro. Na época, cada uma delas foi importante pra minha carreira e pra minha família. Eu advogava, era gestor de comunicação e desenvolvimento de aplicativos num banco grande e ainda ajudava a Lígia, minha esposa, nos eventos de fotografia nos finais de semana.

O estúdio funcionava, mas faltava a energia que eu colocava nos outros trabalhos. A longo prazo, isso atrasou o avanço do nosso negócio de fotografia. Não estou dizendo pra ninguém pedir demissão, cada um sabe onde dói o calo no sapato. Existe um ditado que resume bem isso: o olho do dono é que engorda o gado.

7. Eu ia dar menos bola pro que os outros fotógrafos pensam da minha foto

Perdi tempo tentando impressionar quem também fotografa, comparando edição, equipamento e estilo com colega de profissão. Cheguei a abrir o Instagram com medo, imaginando outro fotógrafo rindo da minha foto ou achando defeito nela. Ficava comparando a jornada dos outros com a minha, story por story.

Hoje entendo que fotógrafo não paga minha conta. Quem compra de mim é cliente, não outro fotógrafo. Cliente não repara no que o Instagram do nicho considera certo ou errado essa semana. Era a maior besteira que eu podia fazer com o próprio tempo.

8. Eu ia procurar mentoria mais cedo, em vez de aprender tudo sozinho no erro

Tem erro que dá pra evitar só ouvindo quem já passou por ele. Levei mais tempo do que precisava aprendendo cada lição sozinho, no próprio bolso, quando existia gente que já sabia a resposta e eu simplesmente não perguntei. A ironia dessa lista inteira é essa. Quase todo ponto acima eu teria testado, corrigido e aprendido mais rápido se tivesse buscado orientação antes.

Os oito pontos, lado a lado.

O queComo eu faziaComo eu faria hoje
TestarProtegia a ideia até ela parecer perfeita, sem testarTestaria rápido com uma versão simples e ajustaria pelo mercado real
ExecuçãoPlanejava site, proposta e portfólio até "poder" começarSairia fazendo e iria ajustando pelo caminho
PreçoCobrava no chute, olhando o que o colega cobravaSomaria depreciação, despesa fixa e o valor real da hora, antes do primeiro cliente
ContratoContrato só depois do primeiro desentendimentoAssinaria contrato desde o primeiro cliente
EquipamentoTrocava de câmera achando que resolvia problema de gestãoInvestiria em entender preço e negócio antes de trocar de equipamento
FocoTrês ou quatro frentes ao mesmo tempo, energia espalhadaFocaria numa frente por vez, com energia de verdade
ComparaçãoMedia a própria jornada pela de outro fotógrafoMediria resultado pelo cliente, não pelo Instagram do nicho
MentoriaAprendia cada lição sozinho, no próprio bolsoBuscaria quem já sabia a resposta antes de errar de novo

Um ponto de honestidade antes de fechar. Não escrevo essa lista com a régua de quem sempre soube o caminho certo. Escrevo porque errei em quase todos esses pontos. Não é sabedoria de nascença, é experiência que custou tempo e dinheiro pra virar clareza.

O que fazer na segunda-feira de manhã

  • Escolha, dessa lista de oito, qual erro você está cometendo agora, hoje, não qual você já superou.
  • Se for precificação, calcule o custo real da sua hora essa semana, antes de fechar o próximo trabalho.
  • Se for contrato, formalize o próximo cliente por escrito. Não existe desculpa pra não ter contrato em todo trabalho, a gente te ajuda com isso.
  • Se for foco, escolha uma frente pra tocar nos próximos 90 dias e pause o resto. Dizer não pras outras é a parte difícil, mas é o que sobra energia pra fazer a que importa dar certo.

No fim, ninguém começa sabendo o que só o tempo ensina. A diferença entre quem aprende rápido e quem aprende devagar não é talento, é quantos New Game Plus você está disposto a jogar antes de parar de repetir a primeira fase.

Notas e fontes
  1. Kolb, D. A. (1984). Experiential Learning: Experience as the Source of Learning and Development. O Ciclo de Aprendizagem Vivencial de Kolb é um dos modelos mais citados em teoria da aprendizagem e usado até hoje em programas de MBA e treinamento corporativo.
  2. Dweck, C. S. (2006). Mindset: The New Psychology of Success. Pesquisa da psicóloga de Stanford Carol Dweck sobre mentalidade fixa e mentalidade de crescimento.
  3. Ries, E. (2011). A Startup Enxuta (The Lean Startup).
  4. Quanto cobrar no seu negócio de fotografia (e como calcular isso direito), artigo publicado no blog da FMN.
  5. A juíza disse qual papel faltava e era o contrato, caso real publicado no blog da FMN.

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